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Chris Shivers – Uma carreira incomparável

CHRIS SHIVERS: UM DOS MAIORES COMPETIDORES DE TODOS OS TEMPOS SE DESPEDE DAS ARENAS NO FIM DESTA TEMPORADA E DEIXA PARA OS FÃS DO ESPORTE GRANDES RECORDAÇÕES DE ALGUÉM QUE NASCEU PARA VENCER E SE ACOSTUMOU A BATER RECORDES

Desde que montou em um touro pela primeira vez, Chris Shivers começou a se acostumar com a glória, as vitórias e os recordes. O bi-campeão mundial pela PBR – Professional Bull Riders, é daquele tipo de atleta que nasceu para vencer, mas nos últimos anos, com o peso da idade e as lesões constantes ele não pode manter a mesma competitividade que todos conheciam e a três meses atrás foi obrigado a declarar: “Este é meu último ano.” Ao anunciar sua aposentadoria, o competidor de 33 anos põe fim a uma era e desde já deixa um vazio entre os fãs do esporte. Dono de um talento incomparável, o americano se tornou especialista em estabelecer marcas inéditas que demoraram algum tempo ou jamais foram superadas e o consagraram como um dos maiores competidores da história da montaria em touros. Por diversas vezes o baixinho com cara de mal levou fama de trapaceiro mas o fato é que ele, como poucos, tem todos os requisitos necessários para ficar os oito segundos em cima de qualquer touro, e fez isso com maestria nos seus 15 anos de carreira. A aposentadoria de Shivers já vinha sendo comentada desde 2008, quando Justin McBride deixou as arenas precocemente aos 30 anos. Dois anos mais tarde foi a vez de seu melhor amigo, Mike White, se despedir do esporte e novamente a especulação de quando ele tomaria essa decisão veio a tona. Com seu desempenho caindo ano a ano uma pergunta insistia em rolar nas conversas sobre a PBR: ele não devia ter se aposentado no auge, em grande estilo, assim como fez McBride? Na verdade, os fãs e especialistas tinham medo de que ele insistisse por mais alguns anos e se despedisse de forma melancólica. Para ele, o que mais incomodava eram as pessoas tentando dar palpites na sua decisão. ”Eles só falam das coisas negativas. Ninguém fala das boas montarias e dos recordes,” desabafou o competidor durante a entrevista onde anunciou sua decisão. Três dias depois desta entrevista, Chris Shivers foi campeão no evento de Atlanta com uma montaria de 90 pontos, mostrando que ainda é competitivo. Esta vitória, com gosto de “cala a boca” foi a 22ª em sua carreira e ele é o terceiro maior recordista de fivelas na história da PBR, atrás apenas de Justin McBride e Adriano Moraes.

Nascido no Mississipe mas criado em uma pequena cidade de Louisianna, Chris Shivers começou a se aventurar no lombo dos touros aos 13 anos de idade e em pouco tempo se tornou o melhor competidor adolescente de seu estado. Disciplinado e focado em seus objetivos ele mantinha uma rotina diferente da dos outros garotos com quem ele competia nos rodeios colegiais. Enquanto a maioria encarava aquilo como uma diversão e as baladas após as montarias eram quase que obrigatórias, ele viajava com seus pais e fazia questão de voltar para casa após as competições. “Eu ia aos eventos por um único motivo. Montar em touros era minha razão de estar lá,” recorda. Nesta mesma época, um grupo de 20 competidores que em sua maioria eram seus ídolos, criaram a PBR, e no mesmo ano em que foi realizado o primeiro Campeonato Mundial da entidade, com a vitória de Adriano Moraes, o garoto, então com 15 anos, ganhou sua primeira pick-up. Treinando os movimentos de montaria em cima de tambores ou qualquer outra coisa que fosse redonda e desse para se sentar, o competidor foi campeão do circuito colegial em seu estado e quando completou 18 anos, ao invés de entrar para uma faculdade e se aventurar nas arenas universitárias, buscou objetivos bem mais altos. Shivers se filiou a PBR em 1997 e já na estréia se classificou para a Final Mundial, onde parou em três dos cinco touros que montou. Neste mesmo ano ele ganhou US$ 67 mil na divisão de acesso e foi Campeão do Challenger Tour, hoje chamado de Touring Pro Division e que ele voltou a conquistar em 2000. Desde que se tornou profissional, Chris Shivers nunca competiu em um rodeio aberto ou evento de qualquer outro campeonato que não tivesse a marca da PBR. Sendo assim, durante os últimos 15 anos ele sempre esteve competindo contra os melhores touros e melhores competidores do mundo. O fundador e atual diretor da PBR, Cody Lambert disse que se lembra de sua estréia e da confiança que ele tinha em si próprio, acreditando que um dia seria Campeão Mundial. “Ele era destemido e nem os acidentes que sofria o assustavam, mesmo sendo tão jovem,” finaliza Lambert. Em 1998, sua segunda temporada na elite da montaria em touros mundial ele já deu a primeira prova de que escreveria seu nome na história do campeonato. Aos 19 anos, foi vice-campeão mundial, perdendo o título por pouco mais de 800 pontos para o australiano Troy Dunn. Com 13 notas acima de 90 pontos durante o ano e um desempenho excepcional na Final Mundial, Shivers se tornou o primeiro competidor da história a ganhar mais de US$ 300 mil em prêmios em uma única temporada. Mas suas façanhas com dinheiro não pararam por ai e durante a temporada de 2000 ele foi o primeiro a ultrapassar US$ 1 milhão em prêmios na PBR, ganhando seu primeiro título mundial meses mais tarde. Nos dois anos seguintes ele ganhou mais US$ 480 mil e em 2003 foi oferecido pela primeira vez o bônus de US$ 1 milhão para o Campeão Mundial e com seu segundo título ele acabou batendo outra marca e foi o primeiro a ultrapassar US$ 2 milhões em prêmios. Três temporadas depois, em 2006, lá estava ele de novo, escrevendo seu nome como o primeiro atleta da PBR a ganhar mais de US$ 3 milhões. Hoje ele está a US$ 87 mil de ultrapassar os US$ 4 milhões e é o terceiro na lista de maiores ganhadores de dinheiro na PBR, atrás apenas de Justin McBride e Guilherme Marchi.

Chris Shivers em ação na Final Mundial da PBR

Para ganhar todos esses dólares, Chris teve que fazer muitas proezas sobre o lombo dos touros e conseqüentemente outros recordes vieram. Atualmente ele é recordista com 93 montarias acima dos 90 pontos, e provavelmente esta marca vai demorar um bom tempo para ser superada, já que o mais próximo dele é o aposentado Justin McBride, com 74 notas. Guilherme Marchi é o competidor em atividade que tem mais chances de alcançá-lo, mas o brasileiro tem até agora 53 notas com mais de 90 pontos. Além disso, o bi-campeão tem outras 60 montarias com mais de 88 pontos, sem contar as vezes que ele caiu próximo aos oito segundos quando fazia uma montaria que lhe renderia uma nota alta. Em depoimento sobre o amigo, McBride disse que não é possível prever quanto tempo alguém ira demorar para superar suas marcas, pois para ele, essas marcas não podem ser conseguidas com algumas boas temporadas. “É preciso uma carreira inteira em ótima fase,” finalizou. Quando se fala em maiores notas da história da PBR, Chris Shivers também é destaque e tem cinco montarias entre as 50 melhores de todos os tempos. O recorde de nota em eventos da principal divisão da PBR até hoje é 96.50 pontos e das quatro vezes que esta marca foi atingida, duas quem estava sobre o touro era ele. Durante o evento de Tampa na Flórida em 2000, Shivers montou o touro Jim Jam e igualou a nota que Bubba Dunn havia conquistado um ano antes. Na temporada seguinte ele dominou o respeitado Dillinger durante a Final Mundial e novamente igualou o recorde de maior nota da história, obtida também pelo Campeão Mundial Michael Gaffney em 2004. Também marcou a carreira de Shivers a participação na montaria mais cara da história, valendo US$ 1 milhão em oito segundos. Como líder do ranking no dia do desafio em 2003, ele teve o direito de montar Little Yellow Jacket, o único que já conquistou três vezes o titulo de melhor touro da PBR, mas acabou caindo e ficando sem o bônus. Das suas 15 temporadas anteriores, em nove ele terminou entre os 10 melhores do campeonato, incluindo os dois títulos, um vice-campeonato, um terceiro e dois quarto lugares. Chris Shivers também foi o primeiro a vencer cinco eventos da PBR em uma mesma temporada e o primeiro e até hoje único a vencer três eventos consecutivos.

Chris Shivers recebendo suas duas fivelas de Campeão Mundial pela PBR

Durante o início de sua carreira Chris Shivers chegou a levar fama de trapaceiro por muitas vezes montar com a espora no nó da corda, que é quando o competidor encaixa a espora na corda americana para dar mais firmeza durante a montaria. Este ato já era proibido no Brasil desde a década de 90, mas até o ano em que ele ganhou seu primeiro Título Mundial era permitido na regra da PBR e acabou se transformando em infração alguns anos depois devido as polêmicas que gerava por favorecer os competidores. Apesar de por algumas vezes tirar vantagem desta facilidade, Shivers fazia justamente porque era permitido, mas isso nunca apagou o grande talento que ele tinha. Pequeno e forte, ele é um dos poucos que seja o que for que o touro exigir, ele saberá dominar. Assim que chegou na PBR ainda garoto, ele começou a viajar ao lado de Bubba Dunn e Norman Curry, experiência que fez muita diferença em sua carreira. Dunn é um dos recordistas de nota do campeonato e único homem a parar duas vezes no lendário Bodacious enquanto Curry tem seu nome escrito no Guinness Book por ter sido um dos três únicos competidores da história a parar em 10 touros seguidos na Final Mundial da PRCA – Professional Rodeo Cowboys Association. Para Cody Lambert, ele soube pegar a melhor parte de cada um e acrescentou com seu talento nato, o que o fez se transformar em um super campeão. Mas o que talvez tenha feito mesmo a diferença foi sua enorme vontade de vencer e superar suas próprias marcas. “Tudo o que eu faço, dou o meu melhor,” declarou Shivers. Em 15 temporadas como profissional foram aproximadamente 330 eventos na principal divisão do campeonato o que faz dele o único atleta que já competiu contra todos os grandes nomes dos 20 anos de história da PBR. O campeão foi um dos únicos também que teve o privilégio de desafiar os maiores touros das duas últimas décadas como Red Wolf, Mossy Oak Mudslinger, Rampage, Troubador, Big Tex, entre outros.

Cara de mau e o coração apaixonado pela profissão foram características marcantes em Chris Shivers

Outro ponto forte na carreira de Chris Shivers foi a forma heróica como sempre encarou suas lesões, por mais graves que fossem e sendo assim, além do seu ano de estréia, apenas em 2004 e 2007 ele não disputou uma temporada completa. Sua fama de “durão” foi comprovada quando um touro lhe quebrou seis dentes em uma chifrada e na semana seguinte lá estava ele, competindo como se nada tivesse acontecido. Mais tarde, outro touro lhe jogou contra os bretes e o competidor quebrou o maxilar e dois ossos do rosto. Nesta época ele ficou três meses afastado das arenas mas foi devido a uma infecção no olho, causada pelo ferimento, pois se dependesse dele, voltaria a competidor em algumas semanas. Nos últimos anos, lesões no ombro, clavícula, perna e mão o impediram de brigar pelas primeiras posições do campeonato e a última vez que ele terminou entre os 10 melhores foi em 2008, com o sétimo lugar. Ano passado ele optou por não participar de todos os eventos e deu os primeiros sinais de que deixaria o esporte ao declarar que sabia tudo o que era preciso para ganhar um título mundial, mas que isso já não era mais sua prioridade pois sabia que não dava pra competir de igual pra igual com Silvano Alves, Robson Palermo, J.B. Mauney e outros, durante o ano inteiro. Nesta temporada, antes de anunciar sua aposentadoria ele parou em pelo menos um touro em cada evento que montou e com a vitória em Atlanta chegou a estar em 11° lugar na classificação. Em março, Shivers participou do PBR 15/15 Bucking Battle, um desafio entre os 15 melhores competidores contra os melhores touros da atualidade, mas ao perder o equilíbrio com 2.20 segundos em cima do respeitado Jack Daniel’s After Party, o competidor foi atingido três vezes seguidas pelo chifre do animal, fraturando sua clavícula. Ele já anunciou que volta a competir em Tulsa, no dia 11 de agosto e pretende ir a pelo menos outros três eventos antes da etapa de Las Vegas. Já classificado para a Final Mundial devido ao dinheiro ganho nos primeiros meses deste ano, Chris Shivers deve fazer sua montaria de despedida no dia 28 de outubro quando irá ter participado da PBR World Finals pela 15ª vez, outro recorde absoluto em sua carreira. Este tem sido um ano especial em sua carreira e nas etapas que participou sempre chamava atenção por ser a última oportunidade que os fãs de cada cidade estavam tendo de vê-lo montar. Na noite anterior ao acidente que fraturou sua clavícula ele foi homenageado na arena de Albuquerque pelo lendário Ty Murray recebendo um rifle comemorativo que até então só era dado ao campeão do evento. “Tentei durante anos vencer este evento para ganhar um rifle e tudo o que eu tinha que fazer era anunciar minha aposentadoria”, brincou ele na ocasião.

Chris Shivers preparando seu filho caçula para mais uma prova do Rodeio em Carneiros

Durante muito tempo em sua vida, Shivers diz que pensava em montaria em touros o tempo todo, mas de alguns anos pra cá ele tem se dedicado mais a família e ao crescimento dos filhos. Ele próprio se declarou realizado e disse que já conquistou tudo o que poderia conquistar, assim faltam motivos para continuar competindo. Quando anunciou sua aposentadoria ele reafirmou que montar já estava deixando de ser seu foco principal, pois quando estava no avião a caminho dos eventos pensava sobre as coisas que poderia estar fazendo em casa. Mesmo fora das competições, o campeão diz que não quer se desligar da PBR, empresa a quem ele foi fiel e onde construiu toda sua vida. Morador mais ilustre de Jonesville, cidade de pouco mais de 2 mil habitantes na região central do estado da Louisianna, Shivers cria gado em sua bela fazenda onde mora com a esposa e dois filhos. Lá ele também construiu uma arena coberta, onde algumas vezes por ano realiza cursos de montarias, provas de laço e competições de rodeio entre jovens competidores. Seu filho mais novo, Brandy, já foi levado a algumas competições de rodeio em carneiro e assim como o pai parece ter obsessão pela vitória, mas ainda é cedo para afirmar que o nome Shivers voltará a brilhar nas arenas no futuro. Enquanto isso, o pai, terá 12 eventos a partir de agosto para coroar da melhor forma possível sua despedida. Matematicamente o terceiro título é possível, mas como ele próprio já declarou, não há condições de competir com os competidores que estão no topo. Quando voltar as competições ele também terá que decidir entre ser agressivo e ousado sobre os touros como sempre foi, arriscando uma nova lesão ou se poupar e ir na melhor forma possível para Las Vegas, onde poderia brigar pela única grande fivela que lhe falta, a da Final Mundial. Mas seja pelos recordes, por sua simplicidade que sempre contrastou com sua cara de mau, por sua louca obsessão pela vitória ou por seu talento, o nome Christopher Shivers será sempre lembrado no esporte mais radical do planeta, um nome que se tornou sinônimo de obsessão por vitória.

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Autor: Abner Henrique (Facebook: http://www.fb.com/HenriqueBad) (Twitter: http://www.Twitter.com/HenRiQue_Bad )

Esta matéria foi produzida especialmente para a Revista É Rodeio, Ed. 14 / Ano 2 (Junho / Julho 2012) que já está nas bancas de todo o Brasil. Para assinar, acesse www.revistaerodeio.com.br

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Publicado em 27 de julho de 2012 por em PBR.
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